sábado, 8 de abril de 2006

Leon Trotsky, Profeta do Século Vinte

Não há como separar o nome de Lev Davidovich Bronstein - Leon Trotsky - da História da Revolução Russa, como também os nomes de Lênin e Stalin.

Trotsky foi, junto com Lênin, um dos revolucionários russos que dirigiram a Revolução de Outubro e inauguraram o Poder Proletário pela primeira vez no planeta, o poder dos Sovietes de todo o povo Russo.

Confirmando as previsões realizadas em 1904 pelo próprio Trotsky, esse poder – conquistado do Tzar pelos camponeses e operários russos – passou das mãos de todo o proletariado russo para as mãos do Partido Comunista. Das mãos do partido, o poder passou para as mãos de seu Comitê Central. E ao Comitê Central substituiu um ditador. Trotsky só não "previu" (e, posteriormente, na época dos fatos, demorou a compreender) que o nome do ditador seria Josef Stalin, traidor da Revolução de Outubro e carrasco dos comunistas.

A Revolução Russa.

A Revolução de Outubro, primeira revolução proletária vitoriosa no globo terrestre, nasceu livre. Não poderia ser de outra forma. Sem levar a liberdade às suas últimas conseqüências, uma revolução é sempre derrotada. De sua liberdade conquistou forças para vencer 7 potências imperialistas que a invadiram após a vitória dos Sovietes em Outubro de 1917.

Mas a guerra civil anti-imperialista trouxe a fome e a morte de grande número de comunistas na frente de combate. Diante da tremenda tarefa de controlar o Estado Soviético, o Partido Comunista acabou paulatinamente sendo por ele controlado! Os comunistas mais conscientes tinham morrido e o fenômeno da burocratização foi se impondo – não sem luta! – sobre os membros do aparelho partidário. A burocracia partidária aderiu à burocracia estatal. Organizando a distribuição da produção estatal russa em meio à grande penúria existente na época da guerra civil, a burocracia pode surrupiar a melhor parte para si. Para manter-se em tal situação após o final da invasão imperialista, os elementos da camada burocrática necessitaram ir suprimindo – não sem luta! – a liberdade e a democracia das instituições estatais e partidárias.

A Luta Contra a Burocracia.

A luta anti-burocrática dos comunistas russos foi longa, árdua, e trágica. Trotsky não a iniciou, cabendo esse mérito à Oposição Operária. Em seu leito de morte, Lênin chamou Trotsky a uma luta comum anti-burocrática, como atestam o "Testamento de Lênin" e o "Diário das Secretárias", documentos de domínio público escritos nessa época. Justamente por isso, suspeita-se que Lênin não teria tido morte natural, mas sim teria sido morto pelo próprio Stalin.

A grande aliada da burocracia era a miséria material e cultural reinante entre o povo russo. Stalin lentamente organizou e liderou a burocracia estatal russa na manutenção de seus privilégios e na erradicação das liberdades democráticas, condição necessária para a manutenção de tais privilégios. Depois dos chamados "Processos de Moscou" onde todos os comunistas notórios de então foram fuzilados sob a acusação de serem "agentes de Hitler", Stalin tornou-se o "grande-pai-dos-povos" e chefe supremo da burocracia estatal russa. Conquistou esse posto por sobre um oceano de sangue dos comunistas, que lutavam pela liberdade e pelo socialismo.

Golpe de Estado ou Revolução Política ?

Uma vez na luta anti-burocrática, Trotsky prosseguiu nela até o término de sua vida. Ele poderia – como comandante do Exército Vermelho – ter executado um golpe de estado que eliminasse Stalin e conduzisse a ele, Trotsky, ao poder ditatorial no nascente Estado Operário. Não o fez porque considerava que apenas a mobilização dos trabalhadores russos poderia derrubar Stalin e restabelecer a democracia soviética. Se derrubasse Stalin sem a mobilização dos trabalhadores, Trotsky ficaria refém dos oficiais do Exército que comandava, e seria obrigado a ser o novo ditador. E Trotsky não queria o poder pelo poder, mas sim o poder para o avanço da revolução e libertação da humanidade.

Já em 1938, muito antes da Queda do Muro de Berlin em 1989, Trotsky escrevia que a URSS não era socialista, argumentando contra a "teoria" stalinista do "socialismo num só país". Defendia que para o socialismo existir, ele teria que ser planetário, se não se expandisse revolucionariamente, estaria fadado ao fracasso. Ao mesmo tempo que criticava a burocracia liderada por Josef Stalin, Trotsky chamava a defesa incondicional do estado operário soviético contra os imperialistas, em especial contra o nazismo.

A Restauração do Capitalismo.

Stalin era contra a revolução para manter a "estabilidade" de seu império burocrático. Se a revolução fosse vitoriosa em muitos outros lugares, os poderes ditatoriais da burocracia stalinista seriam questionados pela classe operária soviética. Foram os continuadores da obra de Stalin – Kruschev, Brejnev, Andropov, o burocrata fidalgo e esclarecido Gorbachev e o burocrata grosso e bêbado Boris Yeltisin – que terminaram por desintegrar a URSS e restaurar o Capitalismo.

Não é a toa que os burgueses russos de hoje são todos ex-membros da KGB, "neta" da NKVD, polícia política que Stalin concebeu para assassinar quem dele divergisse dentro da Rússia e no movimento operário do mundo inteiro. A assim chamada "Máfia Russa" se transformou em burguesia pois era quem tinha o dinheiro "cash" na época da negociata das privatizações.

Hoje, tais mafiosos deixam os operários sem pagar durante meses! Eis a herança de Stalin! Mas o tempo não para! Via Internet, chegam notícias do povo russo na luta contra o Capitalismo recém restaurado. Trotsky, mesmo tendo sido o único dos líderes da Revolução de Outubro que não foi reabilitado dos supostos "crimes" imputados pelos "Processos de Moscou", ou justamente por isso, seguramente verá suas idéias e sua história influenciarem a luta dos trabalhadores russos.

A Herança da Revolução Russa.

Trotsky chegou mesmo a prever que a contra-revolução da burocracia stalinista poderia levar à restauração capitalista na Rússia. Foi mais uma previsão política, histórica e sociológica do genial Profeta Armado, Desarmado e Banido. Ele fazia uma comparação dos Processos de Moscou com o Termidor, a contra-revolução da Revolução Francesa. A partir desse raciocínio, a Queda do Muro de Berlim em 1989, marco histórico da restauração capitalista em todo o Leste Europeu, pode ser comparada à restauração da Dinastia do Bourbons em 1830, décadas após a Revolução Francesa.

Apesar da restauração da monarquia, a Revolução Francesa gerou várias filhas, e uma dentre elas, a Revolução Russa, já viveu seu momento de restauração da antiga ordem. Se retrocedeu em seu país de origem, como a Revolução Francesa, a Revolução Russa plasmou-se no Planeta Terra e também dará seus frutos após sua própria superação. Basta lembrar que a idéia do "Estado de Bem Estar Social" (Welfare State) nasceu como necessidade da burguesia entregar os anéis para não perder os dedos. Após a restauração capitalista na URSS, contudo, a burguesia não só recuperou os anéis como intenta devorar os dedos, os braços e os corpos de toda a classe trabalhadora. A lógica da História é inexorável.....

Com a Revolução Francesa, o planeta se livrou dos empecilhos que cerceavam o crescimento do Capitalismo. Com a Revolução Russa, inaugurou-se no planeta a primeira experiência de construção do Socialismo. Por mais que seja necessário e importante estudar a História do Brasil para compreender e formular uma estratégia para a Revolução Brasileira, é necessário estudar também as Revoluções Francesa e Russa e, especialmente em relação a esta última, entender seus erros e criar maneiras de superá-los.

A Teoria da Revolução Permanente.

Leon Trotsky morreu assassinado, defendendo a teoria da Revolução Permanente enquanto estratégia global de luta pelo Socialismo. No capitalismo da era do imperialismo, essa estratégia se mostrou correta, tanto pelas vitórias que trouxe à classe trabalhadora – sendo a própria Revolução Russa a maior delas – como pelas derrotas ocorridas onde a estratégia contrária, "socialismo num só país" e "aliança com as burguesias nacionais" foi imposta aos PCs nacionais pela Terceira Internacional stalinizada.

Hoje, na época do imperialismo globalizado, a teoria da Revolução Permanente continua fornecendo as idéias-chave para a construção de um caminho viável de implantação do Socialismo no globo terrestre:

Para substituir o Capitalismo, o Socialismo não prescindirá da Revolução! Como tal, a idéia de uma lenta evolução sem traumas resulta utópica e portanto reacionária.

A Revolução é internacional, tanto quanto o Capital. Inicia-se nos marcos de um dado país, mas se expande aos demais. Nos países atrasados, a Revolução só pode ser plenamente vitoriosa se nos países adiantados também vencer a Revolução.

Socialismo em um só país é uma contradição em termos. Ditadura sobre o povo e Socialismo misturam-se tão bem como água e óleo. O Socialismo, ou será Mundial e Livre, ou não passará de Caricatura de Socialismo!

Como conseqüência necessária, os trabalhadores de todo o mundo necessitam de um Partido Internacional da Revolução Socialista, onde reine a livre discussão, a democracia e o respeito às bases, que seja educador e se eduque na construção cotidiana da luta dos trabalhadores em cada um dos países e no âmbito internacional.

Stalin, Coveiro da Revolução.

Stalin – mandante da morte de Trotsky e de milhões de comunistas de todos os países – morreu de morte natural, deixando como herança o stalinismo, ideologia baseada no patriarcalismo, que se baseia no culto de "grandes líderes partidários" e na supressão da democracia como forma de luta pelo poder. Com sua política de "alianças com as burguesias nacionais" em todo o planeta para "barrar o avanço do imperialismo" (no início, o imperialismo alemão e depois o imperialismo americano), Stalin levou à derrota grande número de revoluções do Século XX. Não foi a toa que Trotsky, certa feita, cara a cara, o chamou de "Coveiro da Revolução".

Na Revolução Espanhola, defendendo a aliança com a burguesia para lutar contra Franco, os stalinistas impediram a aliança dos trabalhadores com os camponeses, que queriam a expropriação de todas as terras, incluindo as dos burgueses republicanos. Em sua cegueira, os stalinistas chegaram mesmo a matar e a torturar grande número de líderes anarquistas, do POUM (Partido Obrero de Unificacion Marxista), bem como vários militantes trotskistas.

Na China, os stalinistas eram a favor da diluição do PC no Kuomitang, partido de Chang Kai Check, o qual inclusive foi eleito membro do Comitê Central da Terceira Internacional!! Aproveitando da "aliança" que fazia com os comunistas, o Kuomitang promoveu o massacre de Xangai e outros, deixando o PC Chinês apenas com membros camponeses. Anos depois, Mao Tze Tung sofreu várias tentativas de assassinato da parte de Stalin quando negou na prática a política stalinista de alianças e não submeteu o controle de seu exército ao Kuomitang mas, ao contrário, realizou na prática a política de Trotsky de frente única contra o exército japonês que havia invadido a China. Ideologicamente, contudo, o PC Chinês era completamente stalinizado e seu último "feito" foi massacrar milhares de estudantes e trabalhadores chineses que cantavam "A Internacional" na Praça Celestial da Paz.

A "Solução Jacarta", massacre de comunistas e trabalhadores indonésios, só ocorreu porque o PC Indonésio fazia "política de aliança" justamente com Sukharno, a quem consideravam um militar "nacionalista". Só que a embaixada dos EUA pagou mais ao "militar nacionalista" e o "aliado" organizou a morte de 1.000.000 de comunistas indonésios. Citamos três exemplos apenas, mas quantos outros não poderiam ser estudados e relatados?

A Quarta Internacional.

Na Alemanha, em 1933, os comunistas, a mando de Stalin, se recusaram a promover a frente única com os socialistas para derrotar os nazistas. Trotsky explicou que seria necessário construir a frente única pela base, mas ao mesmo tempo dever-se-ia chamar as direções socialistas a acordos concretos sobre questões vitais como, por exemplo, a autodefesa das organizações operárias contra os bandos nazistas. Pressionando pela base e amarrando acordos pela cúpula, os comunistas deveriam forçar os socialistas à unidade concreta na luta comum contra os nazistas. A cúpula do Partido Comunista Alemão, contudo, preferiu eleger os socialistas como inimigos principais. Como resultado, Hitler deu um golpe de estado e o Partido Comunista não lhe opôs qualquer resistência. O resultado todos sabem qual foi, a desmoralização completa da classe operária alemã, que ficou sem partido - comunistas e socialistas, desunidos, foram fisicamente exterminados pelos nazistas - e sem condições de resistir à máquina de propaganda da "superioridade racial".

Tamanha traição promoveu enorme derrota aos trabalhadores de todo o mundo mas, contraditoriamente, reforçou o controle e a burocratização da III Internacional Comunista. Nascida da Revolução, em 1933 a III Internacional morrera para a Revolução. Trotsky, e um punhado de revolucionados de todo o mundo, chamaram para si a tarefa de reconstrução do movimento operário mundial. A IV Internacional, então criada, nasceu de uma derrota gigantesca, o que determinou em muitos aspectos o caminho que seguiu após a morte de Trotsky.

A fundação da IV Internacional foi a tarefa mais importante da vida de Trotsky, de acordo com a opinião dele mesmo. Se hoje em dia os agrupamentos e militantes políticos que continuam tal tarefa enfrentam um sem número de problemas políticos e organizacionais isso resulta da importância da tarefa, ao contrário de desmerecê-la.

O Programa de Transição.

O documento programático no qual se baseou a IV Internacional foi o Programa de Transição para a Revolução Socialista. Tal documento caracteriza o principal problema da Humanidade, no atual período histórico de decadência do capitalismo como sendo a o problema da traição das lideranças da classe trabalhadora. De acordo com Trotsky, a vitória da traição stalinista e as conseqüentes derrotas da revolução produziu uma situação histórica onde "a crise da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária do proletariado".

Não há trabalhador consciente no Brasil de hoje que não compreenda que a grande questão a vencer é exatamente o problema da traição das lideranças. É importante construir sindicatos e participar das eleições? Certamente que é muito importante, mas... De que adianta construir Sindicatos se depois eles se apelagam? De que adianta vencer eleições para o Presidente da República se o eleito irá trair todos os seus compromissos depois? Quantas experiências concretas como essas já não ocorreram? Não seria necessário um balanço sistemático? Quando vemos o "espetáculo da corrupção" na tela da TV, salta à mente uma pergunta: Como construir uma liderança trabalhadora que não traia?? Esse é sem dúvida o problema chave que enfrentamos no Brasil.

Um segundo aspecto essencial do Programa de Transição se relaciona com o aspecto educador do Partido na luta de classes, com sua postura na "guerra de posição" e "guerra de movimento" no sentido que Gransci dava aos termos. Trata-se da relação entre as reivindicações econômicas e democráticas e as reivindicações socialistas, ou seja, das relações entre os assim chamados programa mínimo e o programa máximo. Trotsky postulou que a formulação de "reivindicações transitórias" deveria superar essa divisão. O Partido, ao organizar e impulsionar a luta pelas reivindicações transitórias catalisa na classe trabalhadora a consciência da necessidade de destruição do Estado Burguês. A luta revolucionária se integra de tal forma à luta por reformas que o resultado da conquista de tais reformas só pode ser a Revolução.

Tal método de construção do Partido e do movimento está intimamente ligado ao processo sociológico e de psicologia de massas do desencadeamento da revolução em um dado país e sua ampliação no cenário mundial, vale dizer processo da Revolução Permanente.

Os Trotskistas no Brasil.

No Brasil, o trotskismo existe desde há muito tempo. Em 1934, pretendendo demonstrar a Getúlio Vargas sua utilidade no combate ao movimento operário, o Partido Integralista de Plínio Salgado chamou grande manifestação na Praça da Sé em São Paulo, que na época era chamada de "Praça Vermelha", por ser o território dos Sindicatos. A intenção era de evidente provocação, numa conjuntura de crescentes agressões integralistas a militantes do movimento operário. Liderada por Fúlvio Abramo e Mario Pedrosa, a Liga Comunista Internacionalista - LCI construiu uma frente única contra tal ato, envolvendo na luta anti-integralista os anarquistas, comunistas (stalinistas), socialistas, tenentistas e quem mais. Tal frente única chamou para o mesmo dia, hora e local, 4 de outubro de 1934, uma Contra-Manifestação.

O resultado foi a "Batalha da Sé", onde até mesmo os soldados da Força Pública foram ganhos para a luta anti-fascista. Metidos a espancadores dos trabalhadores, os integralistas apanharam feito gente grande nesse dia de grande tiroteio em praça pública. Como eles eram conhecidos por "Galinhas Verdes", dado o ridículo uniforme que utilizavam, sua fuga em bando espalhafatoso imortalizou a data como "A Revoada dos Galinhas Verdes". Na São Paulo de então, nos bairros periféricos, sobraram, vazias, espalhadas na calçada, fardas verdes abandonadas por integralistas que furtavam no varal da família uma roupa ainda molhada para fugir... Muito valentes, houve integralista que voltou à pé até cidades como Campinas, no interior do estado! O fato do fascismo não ter progredido no Brasil deve-se muito à luta dos trotskistas dessa época.

Muito se poderia falar acerca das contribuições dos trotskistas à luta dos trabalhadores brasileiros. Mas basta dizer que, na fase final da Ditadura militar, o PCB e o PCdoB e o MR8 – todos partidos stalinistas – bombardearam fortemente a criação de um Partido dos Trabalhadores, pois consideravam mais correta a "política de alianças" com a burguesia liberal para "derrubar a Ditadura". Outras organizações, como a ALN, e a APML sabotavam por dentro o Movimento pró-PT, defendendo em seu interior a construção de um Partido Popular, que agregasse os trabalhadores mas não exercesse a independência de classe. As organizações trotskistas da época, que subsistem até hoje após diversos reagrupamentos, foram peça importante na conformação inicial do PT como um partido classista e politicamente independente da burguesia.

Esse perfil do PT, por sua vez, foi a chave do grande crescimento que o partido experimentou até 1989. A derrota para Collor inaugurou no PT a atual política de Frente Popular, ou seja, de alianças com a burguesia. Hoje o PT é um partido da ordem, que defende, enquanto instituição, a manutenção de FHC no poder até 2002. Mas a consolidação e grande crescimento desse partido ocorreu na época em que era contra a ordem. Não foi a toa, portanto, que as atuais cúpulas partidárias, para promover o giro de um estado de coisas ao outro, tiveram que expulsar do partido significativo número de militantes trotskistas.

Cristo & Trotsky.

Num país de religiosidade tão acentuada como o nosso é interessante debater as semelhanças e diferenças entre Cristo e Trotsky. Ambos eram judeus e são considerados profetas, só para começar... Igualmente a Cristo, Trotsky teve na palavra o seu poder. Ao contrário de Cristo, entretanto, que privilegiava o poder da palavra para a construção de um reino espiritual, Trotsky materializou a palavra em poder terreno, tanto na liderança de Outubro como, principalmente, na construção do Exército Vermelho, transformando a arma da crítica no poder de fuzis e canhões, através do qual promoveu a verdadeira crítica das armas.

Uma semelhança que salta à vista é que Trotsky, como Cristo, morreu vítima da coerência que guardava com suas próprias idéias. De fato, se o Príncipe Satanás algum dia realmente "tentou" Jesus Cristo, este certamente vislumbrou, na aliança com os Zelotas, vitória numa guerra contra Roma. Vitorioso, Cristo seria Imperador Romano. Indo ao deserto raciocinar sobre tal escolha, preferiu manter-se fiel à sua idéia de salvação do mundo pela religião, e a conseqüência foi a morte na Cruz.

Trotsky, ateu convicto, não se deixou cair na tentação do Golpe de Estado contra Stalin pois, se vitorioso, resultaria refém de uma nova burocracia, no caso, os oficiais do Exército Vermelho. Vitorioso, Trotsky seria um ditador. Preferiu manter-se fiel à sua idéia de que a própria classe trabalhadora russa deveria realizar uma Revolução Política contra a burocracia reinante, a qual desencadearia novamente o processo de Revolução Permanente em toda a Europa e Américas, levando o ser humano rumo ao Socialismo. A conseqüência de sua escolha foi a morte nas mãos de um assassino a serviço de Stalin.

Na vida prática, Trotsky tinha outra grande semelhança com Cristo. Tolerância zero ao "farisaismo", aos que fazem profissão de fé em uma coisa e praticam outra e também ao "filistinismo", aos que tudo subordinam ao lucro material. Em sua última obra escrita, pouco antes de ser assassinado, Trotsky resumiu a biografia do mandante de sua morte, aplicando-lhe o epíteto de Josef "Caim" Stalin. Esclareceu, na mosca, de onde vinha o espírito de seu opositor.

Para Continuar essa Discussão.

Trotsky foi o "Profeta do Século XX", um Profeta Armado, Desarmado e Banido. De sua luta, muito poderia ser escrito. Escrevemos o presente artigo sem outra pretensão do que a divulgar e incentivar o estudo científico de sua obra literária com o intuito de colocá-la a serviço da luta dos trabalhadores brasileiros.

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A quem quiser compreender a Revolução Russa, que assista "Reds".

A quem quiser compreender a burocratização da União Soviética, que assista "Stalin"

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A quem quiser passar a limpo a Revolução Espanhola e compreender a política internacional do stalinismo, que assista "Terra e Liberdade"

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1 Commentários:

Blogger Edson Junior escreveu...

Muito bom, senhor.

quinta-feira, 29 novembro, 2007  

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